Lendo hoje a crônica do Millôr, intitulada ‘Os Livros também morrem’, publicada na Veja edição 2062, me lembrei de um fato ocorrido comigo em uma biblioteca municipal. Bem, não era assim uma biblioteca, nem um esboço de que viria a ser algum dia. O prédio era o do antigo Colégio Municipal construído na cidade, se não me falha a memória tinha duas salas minúsculas que guardavam todo o acervo e onde ficavam as duas únicas funcionárias (mas também para que tantas, se não caberiam no ambiente) e uma área onde ficavam precárias mesas e cadeiras para os alunos fazerem suas anotações.
Mais degradante era a qualidade dos livros. Os poucos que existiam não eram suficientes para pesquisa (pois pareciam terem sidos impressos por Gutemberg). E nem daria para se fazer novas aquisições, pois os mesmos teriam que ser dispostos no pátio. Aliás, esse era maior que o prédio, ao qual me pergunto agora, porque não aproveitaram toda a área para a construção de um lugar maior.
Um certo dia cheguei à biblioteca e me deparei com alguns livros dentro de duas caixas colocadas em um canto da sala. Como a minha curiosidade sempre foi grande, perguntei as funcionárias porque estavam ali. Elas me responderam que haviam sido doados a biblioteca central (localizada no centro da cidade e que de longe lembrava aquela em que nos encontrávamos) e que seriam devolvidos para algum lugar, não me lembro para onde elas teriam dito. Notando o meu interesse pelos livros me disseram que poderia pegar algum que me interessasse. Escolhi um exemplar: Homenagem a Camões, sobre conferências promovidas pela comissão de educação e cultura da Câmara dos deputados, no período de 18 a 23 de junho de 1972, que ainda guardo junto ao meu pequeno acervo.
Aí aqui peço licença ao Millôr e cito uma parte da sua crônica: “...voltando à “arrumação” dos livros. Como várias já foram feitas no passado,sobra muito pouco pra botar fora. Haja coragem. Mas boto fora. No lixo. No lixo, seu selvagem? É, pois aí, entre a cozinha, o corredor e a garagem, não sobra um livro pro lixeiro. São logo apropriados pela moça que cozinha, pelo faxineiro do corredor, pelo manobreiro atento. Metade dos livros adquiri logo uma utilidade, que não teria se eu desse os livros a uma dessas tantas “bibliotecas” humanísticas. Aí levaria um ano até a burocracia de serviços os limpasse, catalogasse e colocasse em estantes. A maior parte dos livros morreria de abandono...”.
E aí me pergunto para onde teriam levado o restante dos livros que permaneceram dentro das caixas. Estariam em algum depósito, mas depois de tantos anos traças e cupins os teriam devorado ou tiveram o mesmo destino daquele que adotei e estariam fazendo companhia a outros.
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